Há uma indústria funcionando no Seridó que muita gente desconhece. São cerca de 130 empresas espalhadas por Caicó, Serra Negra do Norte e São José do Seridó, com produção mensal de 2 milhões de bonés e aproximadamente 3 mil postos de trabalho diretos e indiretos. É o 2º maior polo boneleiro do Brasil, atrás apenas de Apucarana/PR. E está no sertão, região historicamente castigada pela seca, pelo isolamento e pela escassez de alternativas industriais.
Cada fábrica de boné que opera no Seridó é prova de que a livre iniciativa prospera onde encontra oportunidade. O empreendedor seridoense cria, emprega, inova e gera riqueza. O Arranjo Produtivo Local de Bonelaria do Seridó, apoiado pelo Sebrae desde 2004, é um exemplo de prosperidade construída de baixo para cima, pela iniciativa de pequenos empresários.
A pergunta que cabe é, até onde essa cadeia pode crescer.
O mercado nacional já está sendo abastecido. O próximo passo é o comércio exterior. A bonelaria do Seridó se encaixa no que o programa RN + Exportação, lançado em outubro de 2025, propõe: diversificar a pauta exportadora com produtos de maior valor agregado e inserir micro e pequenas empresas potiguares no mercado internacional.
O boné do Seridó, especialmente o personalizado, segmento em que a região já tem reputação nacional, reúne características valorizadas no exterior. É manufaturado, tem identidade regional e escala para atender contratos regulares. Hoje o Rio Grande do Norte conta com 140 empresas atuando no mercado exterior, com meta de chegar entre 250 e 300. Nesse contexto, a bonelaria representa uma oportunidade concreta de interiorizar a agenda exportadora e inserir pequenos negócios em cadeias comerciais mais sofisticadas.
Um instrumento importante para fortalecer essa estratégia é a Indicação Geográfica (IG). Em maio de 2026, Apucarana iniciou o processo formal para obter a IG do boné paranaense. O Seridó tem condições de seguir o mesmo caminho. A região já acumulou experiência com os Bordados de Caicó, que conquistaram o selo de IG do INPI, abrangendo 12 municípios seridoenses. Há conhecimento sobre o processo e existe uma entidade representativa, o Sindibonés-RN, capaz de liderar essa articulação.
Segundo estimativas do INPI, uma IG pode elevar o valor de um produto em até 50%. Para um setor formado majoritariamente por pequenos negócios, esse diferencial pode ser decisivo. Mais do que um selo, a IG funciona como argumento de venda, especialmente em mercados que valorizam origem, identidade e rastreabilidade.
O terceiro aspecto estratégico é a sustentabilidade. A cadeia boneleira gera resíduos têxteis que, quando bem aproveitados, podem se transformar em matéria-prima para artesanato, acessórios e outras atividades produtivas. Em uma região que já possui tradição no bordado artesanal, a integração entre indústria e economia circular cria novas oportunidades de renda e reduz impactos ambientais.
Além disso, a gestão adequada dos resíduos fortalece atributos cada vez mais valorizados pelos compradores internacionais. Rastreabilidade não significa apenas saber de onde vem o produto, mas também como ele é produzido e o destino dado aos seus resíduos.
A bonelaria potiguar tem polo consolidado, escala produtiva, tradição, apoio institucional e potencial exportador. O que falta é transformar esses ativos em estratégia coletiva de modo a ampliar a cooperação empresarial, fortalecer a governança do setor, buscar a IG e ocupar espaços em mercados internacionais.
O boné do Seridó já veste o Brasil. Está na hora de vestir o mundo, com nome, origem e responsabilidade.
-

