O pastel que ajudou a tornar Tangará conhecida pela gastronomia também movimenta negócios para além dos limites do município. Em Natal, já faz parte do cardápio de estabelecimentos que apostam na tradição do produto para conquistar novos consumidores. Mas levar o Pastel de Tangará a outros mercados envolve um desafio: crescer sem perder o sabor e as características que construíram sua identidade.
Essa foi uma das discussões que marcaram a programação da Agência Sebrae na Festa do Boi 2026, nesta quarta-feira (14), no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim. Ao reunir empreendedores e especialistas do setor de alimentação, o encontro abordou questões que fazem parte da rotina de quem trabalha com alimentos, da preservação de receitas tradicionais ao controle de custos e à segurança da produção.
À frente do talk show “Muito além do pastel: como o jeito Tangará transforma sabor em experiência e experiência em vendas”, o empresário Joaldo Moreira compartilhou a experiência de quem atua no segmento de pastéis e massas desde 2010. Para ele, a expansão do produto exige cuidado com aspectos que vão além da receita.
“Quando você traz algo que é patrimônio, uma das principais coisas que você tem que sustentar é o sabor. E a outra é a beleza do pastel, porque é a identidade do pastel”, afirmou.
A preocupação é compartilhada por Alexandre Lima, da Siri Burger, que decidiu incluir o Pastel de Tangará em sua operação em Natal. A ideia surgiu ao perceber que muitos consumidores associavam o produto à experiência de visitar a cidade onde ele ganhou fama. “O Pastel de Tangará é tradição, é cultura”, disse o empresário. Para Alexandre, oferecer o produto fora de Tangará significa também assumir a responsabilidade de preservar sua qualidade, especialmente em etapas como a preparação e a fritura.
A força dessa identidade gastronômica ganhou novo impulso com a criação do Festival Gastronômico do Pastel de Tangará. Segundo a vice-prefeita do município, Shayanna Furtado, a primeira edição reuniu 22 estandes gastronômicos e atraiu um público estimado em 30 mil pessoas durante dois dias.
Além de divulgar o produto, o festival abriu espaço para a criação de novos sabores. Um concurso gastronômico premiou receitas desenvolvidas pelos participantes, entre elas o pastel de churrasco de Rafael Araújo, do Pastel do Matuto, que conquistou o primeiro lugar.
O resultado foi sentido também depois do evento. Questionado sobre o impacto da premiação em seu negócio, Rafael resumiu: “Multiplicou as vendas”. Ele contou que a participação ampliou a procura pela pastelaria e atraiu consumidores de outras cidades.
O custo que passa despercebido
Se conquistar novos clientes é parte do crescimento de um negócio, manter o controle da operação é outro desafio. E nem sempre os prejuízos são percebidos de imediato.
Foi o que mostrou a nutricionista Anne Karolinne Dantas na palestra “Da cozinha ao lucro: boas práticas que fortalecem negócios de alimentação”. Para explicar como pequenas falhas afetam o resultado financeiro, ela recorreu a uma situação comum em hamburguerias: dois funcionários que utilizam quantidades diferentes de carne para preparar o mesmo sanduíche.
A diferença de 20 gramas parece pequena. Em uma produção de 50 unidades, porém, representa um quilo de carne a mais do que o previsto. Repetida diariamente, a falta de padronização compromete o controle de custos, mesmo que o estabelecimento mantenha o volume de vendas.
“As boas práticas vão além da higienização dos alimentos. Elas também funcionam para trazer lucro para o seu estabelecimento, ajudar nesse controle e nessa organização dos processos”, destacou Anne.
O problema, segundo a nutricionista, também aparece nas compras feitas sem planejamento, no armazenamento inadequado e na ausência de controle de estoque. Para reduzir perdas, ela apontou medidas como a adoção de fichas técnicas de preparação, planilhas de acompanhamento e treinamento dos funcionários.
O cuidado com a produção também interfere na relação com o consumidor. Um alimento pode ter boa aparência e sabor, mas isso não é suficiente para garantir sua qualidade quando há falhas de segurança, armazenamento ou identificação.
A discussão foi apresentada pela consultora Larissa Gois na palestra “O que ninguém vê também vende: como os bastidores da produção constroem a confiança do consumidor”.
“Não basta dizer que o meu produto é bom. É preciso conseguir demonstrar como ele é feito”, afirmou.
Larissa chamou a atenção para a importância da procedência das matérias-primas, da rastreabilidade e dos cuidados adotados em cada etapa da produção. Em um cenário no qual os consumidores têm cada vez mais acesso à informação, esses processos também ajudam a construir credibilidade.
As atividades integraram a programação da Agência Sebrae na Festa do Boi 2026, realizada de 9 a 17 de outubro, no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim. Durante o evento, o espaço reúne palestras, oficinas e encontros voltados à capacitação de empreendedores e ao fortalecimento dos pequenos negócios no Rio Grande do Norte.

