Caicó se tornou ponto de encontro de saberes, tradições e estratégias ao sediar o Encontro de Indicações Geográficas (IGs) do Rio Grande do Norte e da Paraíba. A iniciativa reuniu produtores, especialistas, representantes de associações e instituições de Ensino para discutir estratégias de fortalecimento, governança e valorização de produtos com identidade territorial reconhecida. O evento ocorreu na tarde desta quinta-feira (23), na Casa do Artesão do Seridó.
A programação contou com palestra técnica sobre Indicação Geográfica, painel sobre o cenário das IGs nos dois estados, apresentação de caso de sucesso nacional e um debate entre os participantes das governanças presentes. Na abertura do evento, o diretor técnico do Sebrae-RN, João Hélio Cavalcanti, destacou que o principal objetivo do encontro é promover a integração entre territórios e fortalecer o entendimento sobre o papel estratégico das indicações geográficas como ferramenta de desenvolvimento econômico e social.
“Queremos que os territórios compreendam a importância da indicação geográfica, tanto aqueles que já possuem, quanto os que estão em processo. Esse contato permite a troca de experiências, fortalece os coletivos e amplia as oportunidades de crescimento. A IG faz diferença na vida dos produtores, melhora a produtividade, agrega valor ao produto e amplia o acesso ao mercado”, afirmou João Hélio Cavalcati, diretor técnico do Sebrae-RN..
João Hélio também ressaltou o caráter integrador do encontro, ao aproximar associações e cooperativas dos dois estados. “Esse diálogo entre Rio Grande do Norte e Paraíba cria sinergia, permite compartilhar desafios e avanços e fortalece esse movimento. A ideia é que esse encontro se torne periódico e possa envolver, futuramente, outros estados”, completou.
A palestra de abertura foi conduzida pelo consultor Gabriel Fabres Beliqui, do Inovates – Instituto de Inovação e Tecnologias Sustentáveis, que já atuou na estruturação de mais de 60 indicações geográficas no Brasil. Ele explicou que a IG é a designação que identifica um produto ou serviço como originário de uma área geográfica delimitada, quando determinadas características estão diretamente ligadas à sua origem.

“Uma IG não se cria, ela se reconhece”, destacou o especialista, ao reforçar que esse tipo de certificação é construído a partir da relação entre produto, produtor e território. O consultor enfatizou que a IG tem como objetivos principais a proteção e a promoção dos produtos, agregando valor, ampliando mercados e garantindo ao consumidor a origem e a autenticidade.
Ele também alertou que a falsificação de uma indicação geográfica é crime, assim como ocorre com marcas registradas. “Uma IG conta histórias, protege tradições e impulsiona o desenvolvimento territorial. O Sebrae tem sido um dos maiores incentivadores desse movimento no Brasil”, pontuou Gabriel Beliqui.
Durante o painel sobre o cenário das indicações geográficas, a analista do Sebrae RN, Michelli Trigueiro, apresentou o panorama do estado, destacando que o Rio Grande do Norte já possui três IGs registradas: o Melão de Mossoró, o Bordado de Caicó e a Castanha de Caju da Serra do Mel.
Além dessas, o estado conta com IGs em processo de estruturação, como o queijo de manteiga de Caicó e o mel de Jandaíra, e outras em fase de diagnóstico de potencialidade, como a ostra de Pipa, o sal de Mossoró, a ginga com tapioca e o camarão.
Segundo Michelli, um dos principais desafios no RN está na consolidação das governanças. “Precisamos fortalecer as organizações para que estejam maduras para receber esse reconhecimento. Outro ponto importante é ampliar a conscientização do público sobre o valor de uma IG”, destacou, reforçando que essas certificações evidenciam a diversidade e a identidade cultural do estado.
Já a analista do Sebrae-PB, Juliene Fernandes, apresentou o cenário paraibano, que também conta com três IGs registradas: a Renda Renascença do Cariri Paraibano, a Cachaça de Areia e o Algodão Colorido. Em estruturação estão o couro de Cabaceiras e o coco de Sousa, enquanto o bordado labirinto de Ingá está em fase de diagnóstico.

Para Juliene, o grande desafio vai além do registro. “A indicação geográfica tem um papel fundamental como ferramenta de desenvolvimento territorial, mas é preciso transformar esse reconhecimento em valor real para o território e melhoria de vida das pessoas”, afirmou. Ela também destacou a importância da integração entre diferentes cadeias produtivas, como agro e artesanato.
O encontro também abriu espaço para a escuta de representantes de IGs já consolidadas. O presidente da Associação dos Produtores de Cachaça de Areia – PB (APCA), Joaquim Cavalcanti, ressaltou a importância da integração entre turismo e produção. Segundo ele, o fortalecimento da IG passa pela valorização da experiência do visitante e pela educação da população local para receber turistas.
Já o presidente da Associação dos Produtores de Castanha de Serra do Mel (Aprocastanha), João Marcos, destacou que o processo de busca pela IG da castanha da Serra do Mel (RN) teve início em 2021, com foco na proteção e diferenciação do produto no mercado. A governança envolve produtores de diferentes municípios, fortalecendo a identidade coletiva do território.
Bala de Banana de Antonina: um case de sucesso nacional
Um dos destaques da programação foi a palestra sobre o case da Indicação Geográfica da Bala de Banana de Antonina, no Paraná, apresentada por Rafaela Takasaki Corrêa, da Associação dos Produtores de Balas de Banana (Aprobam).

Com mais de 40 anos no mercado, o produto se consolidou como símbolo da cidade, reconhecida como a Capital Nacional da Bala de Banana. A produção envolve até 100 produtores locais e movimenta cerca de 120 toneladas de banana por mês, resultando em aproximadamente 25 toneladas de balas.
“A gente entrega mais que bala de banana, a gente entrega troca de afeto”, afirmou Rafaela, ao destacar que o diferencial do produto está na conexão emocional com o consumidor. A estratégia da IG foi além da produção tradicional e passou a incluir novos produtos, como barras de banana, bebidas, cosméticos e itens de merchandising, ampliando o portfólio e fortalecendo a marca do território.
A associação também investe em ações educativas e culturais, levando crianças para conhecer o processo produtivo e estimulando o reconhecimento do patrimônio local. Entre as iniciativas futuras estão a criação de um festival temático, fortalecimento da associação e ampliação de parcerias com artesãos e o comércio local.
Como lição para os territórios do RN e da PB, Rafaela destacou a importância do sentimento de pertencimento. “Uma IG sem pertencimento não gera valor. É preciso pensar como território, ir além do CNPJ e estar presente em diferentes ambientes”, orientou.
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