Produtores rurais de Caicó e São José do Seridó participaram, na manhã da última sexta-feira (20), de um Dia de Campo promovido na Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Caicó. O encontro integrou as ações do projeto Agro-Sertão e abordou temas voltados ao fortalecimento da produção de algodão agroecológico, como ingredientes e receita do bokashi, ingredientes e receita da ureia líquida e custos de produção.
A proposta da atividade foi ampliar o conhecimento técnico dos agricultores sobre alternativas sustentáveis de manejo, com foco na redução de custos e no fortalecimento da produção agroecológica. Segundo a analista técnica do Sebrae, Kessianny Souza, o objetivo é fazer com que os produtores dominem práticas compatíveis com esse modelo de cultivo.

“O propósito desta programação é ampliar o conhecimento destes produtores sobre o plantio agroecológico do algodão. Assim, em vez de utilizarem insumos químicos, eles mesmos produzirão seus fertilizantes com ingredientes naturais — condição essencial para a produção agroecológica”, destacou Kessianny.
O projeto Agro-Sertão atualmente contempla 16 municípios do Seridó potiguar: Acari, Bodó, Caicó, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Cruzeta, Currais Novos, Florânia, Ipueira, Lagoa Nova, Parelhas, Santana do Seridó, São João do Sabugi, São José do Seridó, São Vicente e Tenente Laurentino Cruz. De acordo com Kessianny, os Dias de Campo já foram realizados para produtores de todos esses municípios.
Ela também ressaltou o momento de expectativa positiva para a safra de 2026, após um ano anterior marcado por muitas dificuldades na área rural. “Esse ano de 2026 a gente está com muita esperança porque já começou a chover, as previsões são boas, a maioria das propriedades já plantou o algodão”, afirmou.

Ainda segundo a analista, a retomada da cultura do algodão no Seridó tem mobilizado emocionalmente muitos produtores, sobretudo pelo simbolismo histórico da atividade na região. Ela destacou ainda que a variedade utilizada foi desenvolvida pela Embrapa e apresenta resistência ao bicudo, principal praga que contribuiu para o declínio da cotonicultura no passado.
A ação também evidencia o trabalho articulado entre instituições parceiras. “Os municípios têm todo esse apoio aos produtores rurais, no corte de terras, na questão do coordenador municipal para apoiar esses produtores, na viabilização de encontros. É um projeto muito bem estruturado e que cada parceiro tem a sua função muito bem definida. A Fundação Banco do Brasil participa viabilizando equipamentos; o Instituto Riachuelo com a compra garantida e a Embrapa com a questão da capacitação técnica. E o Sebrae disponibiliza os engenheiros agrônomos para acompanhar cada produtor”, explicou Kessianny.
De acordo com o coordenador da Secretaria de Agricultura de Caicó, Tiago Castro, o foco da oficina foi apresentar insumos naturais que possam ser produzidos na própria propriedade, reduzindo custos e mantendo os princípios agroecológicos do projeto.
“Aqui na oficina, a gente está desenvolvendo um Dia de Campo onde a gente está vendo a questão de adubos naturais, tanto o bokashi sólido quanto a ureia natural, para diminuir o custo desse produtor. Visto que esse algodão, a gente não trabalha com nenhum tipo de veneno e nem com adubação química. Ele tem essa pegada realmente agroecológica”, afirmou.
Tiago lembrou ainda que, além dos Dias de Campo, o projeto conta com as Unidades de Aprendizagem Participativa (UAPs), criadas para fortalecer a troca de conhecimento entre agricultores e técnicos.
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Com a volta das chuvas, a expectativa no município é de avanço. “A empolgação está muito grande, houve corte de terra, já houve a distribuição de sementes, houve a questão da primeira UAP, e cada UAP dessa é um estágio do processo do algodão. Além da assistência técnica junto à coordenação de Caicó, tem assistência técnica do grupo do Sebrae, do Agro-Sertão. Então, eles são atendidos pelo menos duas vezes, têm grupos de WhatsApp, onde a gente discute, onde a gente debate, e está sempre tendo essa troca, que eu acho que é o que fortalece a troca de conhecimento no projeto”, disse.
O consultor credenciado do Sebrae, Aldifran Rafael de Macedo, ressaltou que a oficina da sexta-feira foi voltada à produção de biofertilizantes que serão aplicados diretamente no algodão agroecológico. Para ele, mesmo diante de desafios climáticos e de gestão, o Agro-Sertão vem mostrando evolução consistente ao longo dos anos.
“A evolução do Agro-Sertão tem sido significativa, apesar das inúmeras dificuldades enfrentadas, como as variações climáticas, de gestão e as particularidades de cada município. Mas, se analisarmos, a produção vem crescendo ano a ano, apesar do déficit hídrico. Aumentamos a diversidade de produtos, a produção por área e a sustentabilidade dessas propriedades”, observou o consultor.
Ele acrescenta que o conhecimento gerado no projeto ultrapassa a cultura do algodão e alcança toda a gestão da propriedade. “O produtor hoje está produzindo de forma mais sustentável, porque o conhecimento do Agro-Sertão também está indo para as outras cadeias da propriedade, e também com foco na gestão da propriedade, ou seja, o produtor sabe quanto aplicou, quanto ganhou, se deu prejuízo, se deu lucro, onde ele poderia ter economizado”, pontuou. Segundo Aldifran, outro avanço é a organização do grupo de agricultores em torno da formação de uma cooperativa.

Entre os participantes da programação, a produtora rural Helena de Sena, do Sítio Batentes, em Caicó, falou com entusiasmo sobre sua experiência com o algodão agroecológico, cultivado há cinco anos em sua propriedade. “A experiência tem sido maravilhosa, não tem coisa melhor. Trabalhar com algodão é uma terapia. Quando eu chego lá no roçado, a gente vê aquele algodão lindo esperando por mim, um cheiro de tecido, cheiro de coisa boa, cheiro de alegria. Eu me sinto uma borboleta, junto àquele algodão”, relatou a produtora.
Ela conta que já trabalhava com feijão, milho, hortaliças e frutíferas antes de iniciar no cultivo do algodão, e destaca os benefícios econômicos e produtivos da cultura. “Primeiro, uma renda a mais. Depois, o caroço para dar aos animais. Isso não tem coisa melhor”, disse Helena.
Sobre o uso de biofertilizantes, Helena afirma que já possui experiência de longa data. “Isso já faz muito tempo que aprendi. Há muitos anos que eu trabalho no projeto do PAIS. E eu já sou veterana nessas coisas de biofertilizante. Não teve nada difícil, tudo foi fácil. Mas é importante talvez para outros produtores que não acreditam nessa. Tem muita gente que não acredita, mas eu acredito. Passou, a planta fica bonita. E o meu bio já está pronto”, afirmou.
Também participante do projeto desde o início, em 2022, o produtor rural João Maria de Medeiros, da comunidade Caatinga Grande, em São José do Seridó, avalia que o diferencial do Agro-Sertão está no acompanhamento técnico e na segurança comercial oferecida aos agricultores.
“Quando disseram que íamos voltar a produzir algodão no Seridó, eu fiquei meio receoso, porque a gente não tinha esse acompanhamento. Aí, na primeira reunião, quando foi falado o que seria, de como seria a gente ter assistência técnica mensal, comprador certo para a gente vender, aí eu fiquei curioso para saber como era e sabia que ia ser bom”, contou o produtor de São José do Seridó.
Para ele, os conhecimentos adquiridos nas capacitações têm aplicação prática em toda a propriedade. “O que está sendo aprendido nessas capacitações dá para ser aplicado em tudo na propriedade, não só na produção de algodão. Por exemplo: o biofertilizante, as curvas de níveis que a gente aprende a fazer, tudo isso dá para a gente fazer”, destacou.
O secretário de Agricultura de Caicó, Milton Teixeira, reforçou o valor histórico e simbólico da retomada do algodão para o Seridó. Ao lembrar da infância, ele resgatou o tempo em que a cultura era uma das principais fontes de renda do campo.
“Quando eu era criança, o algodão era tratado como o ouro branco do homem do campo. Eu alcancei meu avô plantando algodão, papai plantando algodão, eu recordo os paióis de algodão. Depois, todo mundo sabe da história do bicudo, que dizimou a plantação do algodão. Devagarinho, com esse projeto Agro-Sertão, está se resgatando o plantio de algodão, timidamente ainda, mas quando São Pedro for generoso com a gente, com certeza todo mundo vai ter uma boa safra e vai estimular os vizinhos a também aderirem a esse projeto”, concluiu.

