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Empresária transforma negócio familiar em indústria de proteínas no Seridó

Após perder o pai, Jardeline Braga assumiu a gestão do tradicional açougue Chico dos Bode e ampliou as operações, criando o Grupo J Braga com atuação em diferentes cadeias de carne
Por Daísa Alves
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Aos desafios, fé, garra e coragem. Foi com esse tripé que Jardeline Braga transformou um dos momentos mais críticos de sua família em uma nova trajetória de sucesso. Em meados de 2021, após o falecimento do pai, ela deixou a carreira de fisioterapeuta para assumir a gestão dos negócios rurais da família. Cinco anos depois, o que já era um dos mais tradicionais mercados de carne de Currais Novos, o açougue “Chico dos Bode”, ampliou as atividades e deu origem ao Grupo J Braga, uma indústria de proteínas que fornece carne bovina, frango, suína, ovina e caprina.

No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, a história da empresária demonstra como resiliência, preparo e apoio institucional podem incentivar mulheres a ocupar espaços estratégicos em setores historicamente masculinos.

Jardeline Braga, CEO do Grupo J Braga. (Foto: cedida)

“Foi um período muito difícil, porque nós somos uma família só de mulheres; só tinha meu pai de homem. Foi muito desafiador. No início, não tive tempo de chorar, de sofrer, de viver o luto. Peguei toda essa dor e transformei em garra e força para continuar, para fazer com que o legado crescesse cada vez mais”, conta Jardeline, atual CEO do Grupo J Braga.

Ela, junto com a mãe, Francisca, a irmã Jaqueline e duas sobrinhas, assumiu o comando dos negócios à época e enfrentou, além da adaptação ao novo ramo profissional, o preconceito de um setor predominantemente masculino.

“Havia o preconceito por eu ser mulher e também por ser jovem, chegando agora para dar ordens a vários homens que já consideravam saber fazer tudo e que eu não sabia. Senti muita dificuldade nisso, até que eu disse que realmente não sabia, mas que ia aprender. Então passei a me dedicar aos estudos, do marketing às técnicas de agricultura”, declara.

Ela ressalta que uma das mudanças implementadas foi o posicionamento da marca. Se antes o pai adotava um perfil mais recluso, hoje a empresa investe de forma estratégica em marketing e publicidade, inclusive com um processo de rebranding. “Sendo mulher no agro, eu aprendi que muitas vezes precisamos provar duas vezes mais — mas também somos capazes de conquistar o dobro. Porque mulher no agro não é só abrir porteiras; é também saber fechá-las com firmeza, proteger o que construiu e garantir que nada desvie do propósito”, compartilha.

Fazenda Zagalheras integra a estrutura produtiva do Grupo J Braga, no Seridó potiguar. (Fotos: Daísa Alves)

Atualmente, a Fazenda Zangalheras, da qual o grupo é proprietário, mantém um ciclo mensal entre 40 mil e 50 mil aves e cerca de 400 cabeças de gado, podendo chegar a aproximadamente 550 animais em determinados períodos do ano. Anualmente, são abatidos em torno de 400 bovinos, dentro de um ciclo que se renova a cada ano. A comercialização ocorre em três nichos — distribuição, atacado e varejo — com atendimento a toda a região do Seridó potiguar.

Desde que assumiu a gestão, Jardeline intensificou a parceria com o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no RN (Sebrae-RN), com apoio em consultorias, implantação de sistemas na fazenda — inclusive na avicultura —, além de participação no ELI-Agro e adesão ao selo Feito Potiguar. Segundo ela, a gestão do grupo é pautada em programas e soluções desenvolvidos com o suporte da instituição.

Fazenda Zangalheras recebe visita de empreendedores rurais ligado ao ELI Agro. (Foto: Daísa Alves)

“O selo Feito Potiguar é um reconhecimento que valoriza nosso produto e confirma que estamos no caminho certo. Ele atesta a origem e a qualidade do que produzimos, fortalece nossa marca, amplia as oportunidades de venda e abre portas para novos mercados”, frisa.

Mulheres da liderança do setor produtivo

Além das atribuições empresariais da família, Jardeline integra a Comissão de Mulheres do Conselho Deliberativo Estadual (CDE) do Sebrae-RN, representando a Associação Norte-Rio-Grandense de Criadores (ANORC).

Criada em 2024, a Comissão é formada por representantes das entidades que compõem o CDE, entre elas Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do RN (Fecomércio RN), Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do RN (FCDL), Federação das Associações Comerciais do RN (Facern), Associação Comercial e Industrial de Mossoró (ACIM), Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco do Nordeste (BNB), Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Nacional), Agência Desenvolve RN, Fundação de Amparo e Promoção da Ciência, Tecnologia e Inovação do RN (Fapern) e Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern).

A articulação dessas instituições em torno de uma pauta estratégica reforça a importância de ampliar políticas e ações voltadas ao fortalecimento do protagonismo feminino nos negócios, aproximando a liderança de empresárias, gestoras financeiras e produtoras rurais das decisões do planejamento estratégico do setor produtivo, com a missão de incentivar o empreendedorismo feminino no estado.

Mona Paula Nóbrega, gerente da Unidade de Desenvolvimento Rural e Negócios de Impacto e membro da Comissão de Mulheres do CDE do Sebrae-RN, ressalta que quando uma mulher cresce, muitas outras avançam com ela, seja pelo exemplo, pela liderança ou pela abertura de oportunidades.

“Quando uma mulher cresce, muitas outras crescem junto. A história de Jardeline reforça que, mesmo em setores historicamente masculinos, há espaços para mulheres deixarem seu legado. A Comissão de Mulheres e as redes de empreendedorismo feminino dão suporte a essas jornadas, ampliando o acesso a oportunidades e recursos, além de fortalecer a presença de empresárias em diversos segmentos”, afirma.

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