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Mulheres fortalecem sucessão no campo e inspiram nova geração no agro potiguar

Histórias de empreendedoras rurais revelam como inovação, permanência e valorização da produção local abrem caminhos para o futuro do agronegócio no Rio Grande do Norte
Por Daísa Alves
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Superando a própria perspectiva e as estatísticas, mulheres despontam no cenário do agronegócio potiguar, fortalecendo a esperança da sucessão no campo. Seja com uma nova cultura, agregando valor ao produto com inovação, exemplos como os das empreendedoras rurais Nina Galvão e Micarla Fernandes reforçam a grandeza, a resiliência e o protagonismo feminino no meio rural.

Em um cenário em que a continuidade dos negócios familiares ainda é um desafio, essas histórias ganham ainda mais relevância. Segundo o Anuário Estatístico da Agricultura Familiar, elaborado com base em dados recentes de 2023 a 2025, mais de 80% das propriedades rurais são administradas por famílias. No entanto, apenas 30% desses negócios chegam à segunda geração e menos de 5% resistem até a terceira.

Foi justamente para valorizar trajetórias como essas que o Ecossistema Local de Inovação do Agro no Rio Grande do Norte realizou, na última sexta-feira (13), a Rota Filhas do Agro. Com saída de Natal, o roteiro visitou o novo abatedouro municipal de São Tomé e as fazendas Alto do Céu e Lima, proporcionando aos participantes a oportunidade de conhecer de perto o trabalho de mulheres que vêm transformando a realidade no campo, além de vivenciar experiências ligadas à produção local e à gastronomia regional.

Recém construído abatedouro municipal de São Tomé, ainda não inaugurado, foi ponto de visita do grupo.

Histórias que inspiram a sucessão no campo

Fora das estatísticas de descontinuidade está Alzenira Galvão, 57, mais conhecida como Nina Galvão, que fala com orgulho da vida no campo e transformou a avicultura em missão. Nascida na fazenda, Nina conta que, após a morte do pai, aos 17 anos, assumiu responsabilidades na propriedade e, como herdeira, passou a se envolver ainda mais com as atividades rurais.

Alzenira Galvão, gestora da Fazenda Alto do Céu.

“Oficialmente, minha empresa, a Caipira do Alto, foi estabelecida em 2016. Comecei com uma pequena criação de 30 pintos, em um espaço improvisado. Felizmente, o negócio prosperou. Hoje, possuo uma criação de mil e quinhentas galinhas e tenho planos de expansão, almejando alcançar seis mil galinhas, com foco em uma produção inicial de três mil. Se o mercado permitir, desejo ampliar ainda mais, construindo um legado para minha família”, conta.

Atualmente, a Fazenda Alto do Céu concentra sua produção em ovos de galinha caipira e aves para abate. Entre os diferenciais do negócio está o sistema de criação, com aves soltas e alimentadas com pasto verde, característica que ajuda a definir a produção caipira. Para enfrentar as altas temperaturas, a propriedade adotou estratégias de manejo, como a arborização das áreas de criação, além de soluções sustentáveis com reaproveitamento de materiais na estrutura.

A paixão de Nina pela avicultura também abre espaço para novas possibilidades dentro da propriedade, onde ela já experimenta outras produções, como pitaya e café, ampliando as perspectivas de diversificação da fazenda.

A propriedade está em processo de adequação e expansão da estrutura para avançar na legalização e na comercialização dos produtos. Nesse percurso, contou com o apoio do Sebrae no Rio Grande do Norte, por meio do Sebraetec, com assistência veterinária, além da criação da marca e da identidade visual. Agora, o foco está na conquista de selos de qualidade e no reconhecimento pelo Feito Potiguar.

A Fazenda Alto do Céu está em processo de adequação e expansão da estrutura.

Micarla Fernandes, 28, por sua vez, representa a quarta geração de produtores rurais da família. Mas esse era um legado que, por um tempo, ela pensou em não seguir. Ainda criança, aos oito anos, aprendeu a fazer queijo com o pai, ajudando desde cedo na ordenha e no processo de produção. Ao acompanhar de perto a rotina de esforço e as dificuldades enfrentadas por ele, chegou a desejar distância daquele caminho, tanto para si quanto para as futuras gerações.

Micarla Fernandes, produtora de queijo da Fazenda Lima.

Foi com o incentivo do esposo que a história tomou um novo rumo. O que começou como uma alternativa de renda para a propriedade acabou se transformando em paixão e propósito. “O queijo começou como uma alternativa de fonte de renda para a propriedade. Hoje, me vejo apaixonada pelo queijo artesanal, especialmente pela maturação”, relata.

Uma das decisões tomadas por Micarla para enfrentar as dificuldades que via na trajetória do pai foi investir na produção do próprio leite, como forma de garantir mais qualidade e regularidade à matéria-prima. “Eu via meu pai comprando leite que, muitas vezes, não tinha qualidade, às vezes até misturado com água, e isso influenciava diretamente no resultado final do queijo”, explica.

Na propriedade, a produção é estruturada para sustentar toda a cadeia. Além do rebanho, a família cultiva mandioca, capim e palma para alimentação dos animais. Atualmente, são 28 animais no plantel, livre de tuberculose, com produção média de 80 litros de leite por dia. No processamento, o rendimento reforça o valor agregado do queijo artesanal.

Para quem está começando, Micarla deixa um conselho direto, fruto da própria experiência: “Pegue na mão de quem pode dar apoio e tenha coragem de criar”.

Esse exemplo de coragem e permanência já inspira uma nova geração. Aos 20 anos, Maria Eduarda Macedo se considera, há seis meses, uma empreendedora rural. No Rancho Macêdo, em São Gonçalo do Amarante, ela atua na produção de leite e decidiu se envolver mais diretamente no negócio da família ao perceber que o pai estava prestes a desistir da atividade.

Formada como técnica em agropecuária pela Escola Agrícola de Jundiaí, Maria Eduarda viu na própria formação um caminho para fortalecer a produção familiar e ajudar a manter a atividade no campo. “Foi quando eu percebi que podia somar com meu pai. Ele tem o conhecimento tradicional, a vivência, e eu chego com o novo, com a técnica. A gente se completa”, resume.

Trajetória de crescimento das empreendedoras rurais inspira grupo.

Para ela, conhecer histórias como as de Nina e Micarla reforça a importância de seguir em frente. “O empreendedorismo rural está no meu sangue. Eu me vi muito nas duas, nos inícios e nas dificuldades. Estou muito inspirada com as histórias delas. Quando eu pensar em desistir, vou lembrar que Micarla também pensou e permaneceu”, afirma.

Experiência, formação e novas oportunidades no agro

Dar visibilidade ao protagonismo feminino no universo rural do Rio Grande do Norte é uma forma de reconhecer o papel estratégico das mulheres no fortalecimento do agro potiguar, avalia a gerente da Unidade de Desenvolvimento Rural do Sebrae-RN, Mona Paula Nóbrega. “Ao mostrar histórias como as de Nina e Micarla, evidenciamos que as mulheres estão à frente da produção, da inovação, da gestão e da agregação de valor no campo. São trajetórias que inspiram outras empreendedoras, fortalecem a sucessão rural e ampliam o olhar sobre a força do empreendedorismo feminino no meio rural”, afirma.

Para Hailson Ferreira, professor de Agronomia da Escola Agrícola de Jundiaí, a visita reforça a importância de aproximar teoria e prática, além de apresentar aos alunos exemplos concretos de gestão, inovação e permanência no campo. “É um momento muito significativo, principalmente para observar a força da mulher no agronegócio. Ao mesmo tempo em que ensinamos, também aprendemos e conseguimos levar essa prática para a teoria”, ressalta.

Segundo o professor, o incentivo à juventude para dar continuidade aos negócios rurais segue como um desafio comum em todo o setor. “A sucessão no campo é, hoje, um dos maiores desafios do agronegócio. Nem sempre os jovens se sentem motivados a continuar os negócios de seus pais, avós e bisavós. Mas, por meio de instituições como o Sebrae, o Senar e a própria universidade, com cursos e oportunidades de vivências como esta, buscamos estimular esses jovens, apresentando exemplos de sucesso para que permaneçam no campo, empreendam e valorizem essas atividades”, acrescenta.

Comemorando o sucesso da primeira Rota do ELI Agro de 2026, a consultora do Sebrae-RN e coordenadora do ELI Agro, Maria Luiza Fontes, destaca que a iniciativa busca ampliar o olhar sobre o meio rural e valorizar experiências que já se mostram bem-sucedidas no estado. Para 2026, a estratégia é avançar na profissionalização do turismo rural de experiência, estimulando os produtores a perceberem que, além de comercializar produtos, também podem oferecer serviços e vivências em suas propriedades.

“Queremos que o produtor entenda que o ambiente rural também é um atrativo. Nosso trabalho agora é conscientizar, identificar oportunidades e, depois, avançar com capacitações, acesso a crédito, participação em feiras e divulgação dessas experiências, para atrair mais visitantes e impulsionar a economia local”, conclui.

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