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Dia do Agricultor: agroecologia transforma e inspira o desenvolvimento territorial no Vale do Açu

História da agricultora Margarida Sônia Resistência mostra como uma iniciativa implantada pelo Sebrae RN há duas décadas se tornou referência em produção sustentável na região
Por Sandra Monteiro
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Na semana dedicada ao Dia do Agricultor (a), celebrado nesta terça-feira (28), um exemplo mostra que, quando o conhecimento encontra alguém disposto a transformá-lo em ação, os resultados podem ir muito além da produção e alcançar a transformação de vidas e de um território. Foi exatamente isso que aconteceu no Assentamento Tabuleiro Alto, em Ipanguaçu, no Vale do Açu, onde uma semente plantada há duas décadas germinou e deu origem a uma história que hoje é referência em agroecologia, transformação social e desenvolvimento territorial.

Foi lá que, em 2006, o Sebrae no Rio Grande do Norte implantou uma das primeiras unidades do projeto de Produção Agroecológica Integrada Sustentável (PAIS) no estado. O objetivo era fortalecer a agricultura familiar e a agroecologia, mas os resultados foram além. Ali, o projeto encontrou na determinação e na resistência de uma mulher o verdadeiro poder para transformar um lote árido em um oásis no semiárido potiguar.

Passados 20 anos, a resistência virou sobrenome que ajuda a contar a história de Sônia Costa, agora Margarida Sônia Resistência, como ela ficou conhecida e gosta de ser chamada. A produtora, hoje com 58 anos, cinco filhos e 16 netos e dois bisnetos, se tornou referência em produção sustentável, liderança comunitária e inspiração para uma nova forma de pensar o desenvolvimento territorial.

“Foi o Sebrae que fez a diferença na vida da família Resistência. Quando comecei a participar do Projeto PAIS, a realidade era bem diferente de agora. As dificuldades eram muitas, minha renda era de 16 reais do Bolsa Família. Foi aí que a resistência se tornou ainda mais presente na minha vida. Resisti à pobreza, ao machismo e à falta de oportunidades. Tive a oportunidade dada pelo Sebrae e me agarrei a ela, sempre resistindo. Hoje, eu carrego a resistência no meu nome e sigo resistindo aos desafios para levar mais longe o conhecimento que adquiri”, orgulha-se.

Ao lado de Bandeira, companheiro de longa data, a agricultora de base ecológica transformou a pequena propriedade onde vive em um espaço de inovação, produção diversificada e compartilhamento de conhecimento. Também fez da própria trajetória um exemplo que inspira uma nova geração de agricultores no assentamento e na região.

Ao longo desse período, a propriedade, que contabiliza 16 hectares, incorporou novas tecnologias, como sistemas agroflorestais (SAFs), reuso de água e secador solar. Mais recentemente, passou também a contar com um biodigestor que transforma esterco bovino em gás, utilizado na propriedade.

A transformação chegou à produção. Hoje, a propriedade reúne uma diversidade de alimentos. Frutas, ovos, mel, hortaliças, além de ervas medicinais, temperos e chás desidratados abastecem programas institucionais e chegam a consumidores de estados como Ceará, Sergipe e São Paulo. Com ingredientes naturais, a família produz ainda uma série de produtos, como o repelente à base de citronela.

Mas, para Sônia, a principal colheita não pode ser medida apenas pela produção. Ela lembra que houve um tempo em que dependia da doação de roupas para vestir. Hoje, participa de eventos, compartilha conhecimentos com agricultores e técnicos, viaja para apresentar sua experiência e acompanhou, com orgulho, o acesso e a formação superior de duas filhas. “A agroecologia me deu autonomia. Passei a ganhar meu próprio dinheiro, fazer minhas escolhas e ser independente. Saí de uma roupa doada para vestir a roupa que eu gosto de vestir. Formei duas filhas e a força da natureza segue vibrando dentro de mim”, afirma.

Transformação que inspira

Os resultados da junção entre conhecimento e oportunidade ultrapassaram os limites da propriedade pertencente à família Resistência. Atualmente, além do trabalho na propriedade, Sônia Resistência leva mais longe o conhecimento que adquiriu e compartilha diariamente.

Presidente da Associação da Agricultura Familiar de Base Ecológica Resistência, que reúne mulheres, jovens e agricultores da comunidade, a agricultora vê a semente do conhecimento multiplicar os frutos. Sob sua liderança, o grupo conquistou novas tecnologias sociais, fortaleceu quintais produtivos e implantou uma lavanderia comunitária no assentamento.

Impacto inspirador

Foi para revisitar essa experiência que equipes das agências Sebrae Grande Natal e Sebrae Vale do Açu estiveram recentemente no assentamento. A visita técnica integra um movimento da Agência Sebrae Grande Natal para ampliar a sensibilização das equipes sobre o desenvolvimento territorial e aproximar os colaboradores de experiências capazes de revelar, na prática, o impacto das ações construídas ao longo do tempo.

Para o gerente da Agência Sebrae Grande Natal, Thales Medeiros, conhecer histórias como a de Sônia é uma forma de fortalecer um olhar que vai além dos indicadores econômicos. “O desenvolvimento territorial acontece quando conseguimos identificar essas forças vivas presentes nas comunidades. A história da Sônia mostra que nosso papel não é transformar a vida das pessoas, mas criar oportunidades para que elas próprias construam essa transformação. São experiências que permanecem, inspiram outras lideranças e continuam produzindo resultados muitos anos depois”, afirma.

Para o gerente da Agência Sebrae no Vale do Açu, Fernando de Sá Leitão, responsável pela atuação no território, histórias como a de Sônia demonstram que o desenvolvimento territorial nasce da capacidade de reconhecer e potencializar os talentos existentes em cada comunidade.

“Entre 2006 e 2007, quando implantamos o projeto PAIS em Ipanguaçu, sabíamos do potencial da agroecologia, mas precisávamos da coragem e da resistência de produtores como Sônia para dar vida àquela ideia. Ela abraçou a ideia e transformou sua propriedade em um exemplo vivo e inspirador. Saber que aquela semente plantada há vinte anos se multiplicou e que hoje é um vetor de mudança na vida de tantas outras famílias da agricultura familiar é a maior recompensa que esse trabalho poderia nos dar”, ressalta.

Ainda conforme o gestor, esse entendimento tem orientado a atuação do Sebrae nos últimos anos. “A ideia é oferecer mais do que soluções prontas e buscar construir processos capazes de fortalecer lideranças locais, estimular redes de cooperação e criar condições para que o desenvolvimento continue acontecendo de forma autônoma e sustentável”, assevera.

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