A valorização do mel de abelhas nativas sem ferrão e as oportunidades de geração de renda para pequenos produtores estiveram em destaque na Agência Sebrae Festa do Boi 2026. A programação apresentou experiências que mostram como a organização comunitária, o reconhecimento da origem e o aproveitamento de outros produtos das abelhas podem ampliar as possibilidades de negócios da meliponicultura no Rio Grande do Norte.
Um desses exemplos vem da comunidade do Cabeço, em Jandaíra, onde o mel produzido por integrantes da Associação de Jovens Agroecologistas Amigos do Cabeço (JOCA) já chegou à alta gastronomia, incluindo a cozinha do chef Alex Atala, em São Paulo. Em 2025, a associação conquistou o registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF) para sua unidade de beneficiamento, tornando-se a primeira do estado voltada a produtos de abelhas nativas sem ferrão a obter o reconhecimento.
A trajetória foi apresentada pelo empreendedor socioambiental, meliponicultor e consultor credenciado do Sebrae, Francisco Medeiros, durante a palestra “Do Meliponário ao Mercado: Como transformar o Mel de Abelhas Nativas Sem Ferrão em produto de valor, identidade e impacto”.
Fundador da ybi-ira Mel da Terra, Francisco destacou que a comercialização do mel precisa considerar as características que diferenciam cada produção. A vegetação da Caatinga, a espécie de abelha e os conhecimentos tradicionais das comunidades são fatores que influenciam o produto e podem contribuir para sua valorização.
“Quando a gente vende o nosso produto apenas como mel, nós competimos com o preço. Mas, quando mostramos de onde ele vem, a história de quem produz, a identidade do nosso território e o cuidado que existe em cada etapa, conseguimos mostrar que aquele mel tem um valor diferente. Não é apenas o produto que está sendo comercializado, mas todo o trabalho e o conhecimento que existem por trás dele”, destacou Francisco.
O trabalho desenvolvido em Jandaíra também ganhou projeção internacional. Em 2015, Francisco recebeu o Prêmio Oscar Green, na Itália, por sua atuação no empreendedorismo associado à meliponicultura. A experiência está ligada a iniciativas de conservação das abelhas nativas e valorização dos produtos do semiárido.
Durante a palestra, ele também ressaltou a relação entre a atividade e a preservação da Caatinga. As abelhas nativas desempenham papel importante na polinização da vegetação, enquanto a continuidade da produção depende de cuidados com o ambiente e do manejo responsável das colônias.
Entre os participantes que acompanhavam as palestras estava Gean Fonseca, da comunidade indígena Santa Terezinha. Integrante do Projeto de Apicultura e Meliponicultura do Sebrae-RN, ele encontrou na criação de abelhas nativas sem ferrão uma possibilidade de complementar a renda familiar. Pela segunda vez na Agência Sebrae Festa do Boi, Gean aproveitou a programação para trocar experiências com outros produtores e conhecer práticas que possam contribuir para o desenvolvimento da atividade em sua comunidade.
“A gente começou a se interessar pela criação de abelhas sem ferrão como uma forma de ter uma renda a mais. É uma atividade que tem muito potencial. Estar aqui é bom porque a gente conhece outras experiências, aprende com quem já trabalha há mais tempo e leva esse conhecimento para a nossa comunidade”, conta.
Também da comunidade indígena Santa Terezinha, Lucineide Pereira desenvolve a meliponicultura há cerca de um ano. Ela elogiou a programação e destacou a importância dos conhecimentos compartilhados durante as palestras, ressaltando que valeu a pena participar das atividades.
Potencial nutricional do samburá
Além do mel, outros produtos das abelhas nativas sem ferrão também apresentam possibilidades de aproveitamento. Durante a palestra “O potencial do samburá na nutrição clínica funcional e ortomolecular integrativa”, a nutricionista e meliponicultora Sabrina Sena apresentou as propriedades nutricionais do samburá, alimento formado a partir do pólen coletado pelas abelhas e submetido a um processo natural de fermentação dentro da colmeia.
O samburá pode conter proteínas, aminoácidos, vitaminas, minerais e compostos bioativos, como carotenoides e polifenóis. Segundo Sabrina, pesquisas vêm investigando seu potencial antioxidante e anti-inflamatório, além de possíveis efeitos sobre a saúde intestinal e o metabolismo da glicose. A especialista ressaltou que esses estudos apontam possibilidades de aproveitamento nutricional do alimento, sem substituir tratamentos de saúde.
“Cada pólen, cada samburá é único, assim como o mel”, destacou Sabrina. A nutricionista explicou que a composição do produto varia conforme a espécie de abelha, a vegetação e as condições de produção. Essas diferenças podem ser percebidas até mesmo entre os potes de uma mesma colmeia, que apresentam variações de cor, sabor e características nutricionais.
Sobre a Agência Sebrae Festa do Boi
De 9 a 17 de outubro, a Agência Sebrae Festa do Boi oferece, no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim, uma programação gratuita voltada ao desenvolvimento do agronegócio. Em uma área de 5 mil metros quadrados, o espaço reúne capacitações, demonstrações, gastronomia e exposição de produtos potiguares.
A programação completa está disponível em agenciasebraefestadoboi.com.br



